A dança

abraço

O silêncio barulhento perfuma ideias sussurradas de lembranças. Me enxergo uma dama de ferro no gelado do banco enquanto a loucura do tempo perdura a chegada de seus ventos.

A graça do discurso me arranha em um gosto aflorado da epifania de sua presença. Não é um bar, mas o gole desce queimando (som), raspando um whisky amargo que aprazera. É o encanto. É o frescor do ventilador oposto, sopros clássicos de quem te chama para vida.

O toque doce confunde-se com o grito que o céu ecoa de imensidão, já que as árvores parecem apreciar  a explosão das nossas almas conectadas. O ambiente reage. E pula. E sente. O suspiro do ar na contração do cheiro escuta a democracia do amor cantar.

A coreografia intensa proíbe o olfato, o tato, o paladar, a audição e a visão. Está consumado. Essa dança é sua. Se apresente.

– LETÍCIA PASSARINHO

Escrito em 14/09/2016

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QUEBRA-CABEÇA

QUEBRA-CABEÇA
 
desconcertado
em cada
pedaço
de mim
tem você.
 
montado em
p
e
ças
manequins
querubins
sim’s.
 
partículas imaginárias
de uma mente
par tida
 
parte feito ttremmm
balanço vai e
vem
parte do que sou
tem você.
 
um tudo quase nada
do que restou
em cada parte
de mim.
 
– LP.

AOS INTERNAUTAS

AOS INTERNAUTAS
 
 
Tela, do latim cela.
Cega.
 
As correntes dos botões agora apertam teus dedos
A conexão tira seus medos.
Na internet, você tem medo de nada.
À tarde, tem vergonha de andar sozinha na praça.
 
Por que você abdica seu prazer de sentir?
De comer. De sentar direito. As costas sentem dor também.
 
Por que você sorri tão longe? O que dentro dessa alma você esconde…?
 
Venha me mostrar toque no toque. Inspiração na sua expiração.
Quero conectar-me a rede da presença.
Durante o trajeto, não esqueça:
 
Levanta a cabeça, vai perder o ônibus.
Cuidado ao entrar, não tropece no carregador.
Não olhe pra trás! Pode ter uma televisão te assustando.
O tempo, se debruçando.
 
-LETÍCIA PASSARINHO.

QUARTA FEIRA DE CINZAS

O Sol veio nos contar que ainda há tempo, amor

A cada veraneio, um vendaval.
Sorte de quem dança
Quem não deixa de ser criança
Sede da juventude, carnaval.

O puro momento, floresce
Sabor de mel
Toda fumaça que dissipa, derrete.

Creme-se de amor!
A festa acabou, mas a música ainda toca
Morra para viver
Antes o adeus bata à porta.

– LP.

O homem do colar

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Em uma viagem à praia no litoral norte paulistano, um moço deixou um pedacinho dele em mim. Argentino, uns trinta e alguma coisa anos, baixinho, feliz, simples. Chegou me mostrando seu trabalho artesanal de colares com pedrinhas, bem feitos com um toque de carinho. Seu nome era Luiz, Carlos, Miguel, eu não sei. Eu não lembro o nome do moço, mas lembro de que ele possuía uma história que provavelmente me acompanhará por bastante tempo.

Seu sotaque não negava que era estrangeiro, o sorriso, também não negava a humildade daquele homem, que pra mim mais parecia um garoto. Chinelo, luz e cabelo raspado. Sim, cabelo raspado.

– Veja meu trabajo artesanal… Estão quince reales os colares. Estoy em Ubatuba há alguns meses vivendo aqui porque me apaixonei.

Abri uma grande risada. Senti empatia. Fiquei feliz por ele ter me oferecido os colares. “Pedra da lua, pedra do sol, pedra do mar…” Eu queria todas. Queria mais ainda saber a história daquele vendedor que me pegou a atenção.

A paixão, não era por alguém, era pelo lugar. Meu novo amigo não saiu da Argentina para amar algum brazuca, saiu para viver com as praias.

– Yo vim em viagem, mas fiquei encantado por estas hermosas playas. Ubatuba, Paraty, Rio de Janeiro. No consigo mais ir embora daqui.

Tinha uma filha argentina de seu antigo casamento. Sentia a falta dela, pois morava com sua ex-mulher. Às vezes a pequena passava feriados com ele para matar a saudade, e ele se sentia animado porque eram épocas de férias, então sua filhinha o veria mais tempo. Uma conversa boa, já tinha escolhido meu colar. Ele disse que é do Sol, mas eu acho que é da Lua. A pedra era transparente, me identifiquei, era um reflexo de mim. A praia se tornou muito mais bonita com aquela conversa jogada fora dentro de meu ser.

Ele teve problemas no Brasil. Meu amigo tinha moto. Bebeu algumas cervejas. A polícia o parou pela placa gringa bem no dia da gelada. Foi preso. Antes disso, nada mais nada menos do que uns palavrões ditos daquele brasileiro conservador que tem prazer em ferrar argentino. Tapas e empurrões também aconteceram. Foi tudo no meio da rodovia que beirava o mar.

Meu amigo me deixou chocada e triste por ele. Ele não sabia dessa tal Lei Seca, morava há alguns meses em Ubatuba. Foi parar em um presídio em São Paulo, mal fazia noção do que era. Dormiu alguns dias lá. Aprendei que não se pode dirigir bêbado no Brasil, e que também não podia ser argentino no Brasil. O preconceito comia solto.

Depois do mandato, o artesão voltou a Ubatuba sabe lá Deus como, mas voltou. E estava ali sorrindo pra mim. Encantado com o mar beirando a areia que acomodava nossa conversa. Ele escolheu viver para a natureza, e com a natureza. Deixou sua cidade, sua filha, seu emprego para encontrar o seu lugar.

Paguei o colar. Ele queria ir, eu acho. Se eu pudesse, compraria todos os colares. Ou quem sabe fizesse o dinheiro não existir mais e então achar um casinha para ele morar, ali mesmo perto da praia. Também conseguiria ir à Argentina ver sua menina. Assim, meu amigo ficaria mais feliz, talvez.

Mas afinal, o mais incrível de tudo era que ele não tinha nada disso. Dinheiro, uma boa casa, um emprego, uma filha perto e qualquer outra coisa que a gente chama de “ser alguém na vida”. Mas meu amigo era sim alguém na vida. Era alguém em seu lugar. Que era feliz e deixou outra pessoa feliz. Alguém que largou o convencional para ficar perto do que te fazia sentir amor. O mar. A natureza. A paz. Ele e seu lugar.

Guardei o colar comigo, poucos sabiam que aquela pedra transparente da Lua ou do Sol tinha uma linda história. Um dia perdi. Chorei. Queria carregar aquela sensação da viagem anterior comigo. Mas tinha se ido.

Um tempo depois, quase exatamente um ano após essa viagem, uma pessoa que tinha muito amor a oferecer a mim me presenteou com o mesmo colar, a mesma pedra. Um gesto de amor para eu sempre me lembrar de ficar feliz.

Obrigada, amigo.

– Letícia Passarinho

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Não precisei de regras para nascer poeta

Sonhava com cores, riqueza, floresta

Não precisei de métrica para encaixe

Observava o passarinho verde e o som de praxe

Não precisei de aulas para entender o mundo

Aprendia a simplicidade, apenas o que era profundo

Não precisei de paixão para ser amor

Sorria o despertar, crescer era sentir dor

Não precisei de lápis para um registro

Fazia da minha mente um álbum de resquícios

Não precisei de perdição para ter prazer

Dançava na loucura, comia do bolo, só o glacê

Não precisei de técnica para sofisticação

Abraçava o sublime, me desafiava com paixão

Não precisei de muito para o que digo

Encontrava a poesia, permitia ser infinito.

 

-LP.

ligia-casa-sem-teto

Turista introspectivo

A madrugada me consome.
Cada respingo de chuva é a liberdade do meu ser aflorando
Cada toque nesse corpo macio são estrelas dançando

Um vinho, uma costura descosturada e o infinito da noite.

A rua reluz no reflexo do úmido com a lâmpada enquanto absorvo a plenitude de uma criança

Que só quer brincar de se esconder, para se encontrar em si mesmo.

Outrora ri, outrora cambaleia.
O suspiro de fora se sobrevive no abraço que recheia.

Recheia o último pedaço de bolo que sobrou da tarde, agora mais conhecido como companheiro.
Sente. Puxe. Grite.

Me desenho em teus traços tão sutis, uma obra prima que a arte nunca assinou, uma platéia que não riu. Mas aplaudiu.

Agora o batuque do coração acende e chama o vento que restou do choro das nuvens.

Me espreguiço na música de meus sons.
Então,
Vivo a delícia que é ser. A delícia de me ter. A delícia que é essa serena madrugada.

-Letícia Passarinho.