O homem do colar

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Em uma viagem à praia no litoral norte paulistano, um moço deixou um pedacinho dele em mim. Argentino, uns trinta e alguma coisa anos, baixinho, feliz, simples. Chegou me mostrando seu trabalho artesanal de colares com pedrinhas, bem feitos com um toque de carinho. Seu nome era Luiz, Carlos, Miguel, eu não sei. Eu não lembro o nome do moço, mas lembro de que ele possuía uma história que provavelmente me acompanhará por bastante tempo.

Seu sotaque não negava que era estrangeiro, o sorriso, também não negava a humildade daquele homem, que pra mim mais parecia um garoto. Chinelo, luz e cabelo raspado. Sim, cabelo raspado.

– Veja meu trabajo artesanal… Estão quince reales os colares. Estoy em Ubatuba há alguns meses vivendo aqui porque me apaixonei.

Abri uma grande risada. Senti empatia. Fiquei feliz por ele ter me oferecido os colares. “Pedra da lua, pedra do sol, pedra do mar…” Eu queria todas. Queria mais ainda saber a história daquele vendedor que me pegou a atenção.

A paixão, não era por alguém, era pelo lugar. Meu novo amigo não saiu da Argentina para amar algum brazuca, saiu para viver com as praias.

– Yo vim em viagem, mas fiquei encantado por estas hermosas playas. Ubatuba, Paraty, Rio de Janeiro. No consigo mais ir embora daqui.

Tinha uma filha argentina de seu antigo casamento. Sentia a falta dela, pois morava com sua ex-mulher. Às vezes a pequena passava feriados com ele para matar a saudade, e ele se sentia animado porque eram épocas de férias, então sua filhinha o veria mais tempo. Uma conversa boa, já tinha escolhido meu colar. Ele disse que é do Sol, mas eu acho que é da Lua. A pedra era transparente, me identifiquei, era um reflexo de mim. A praia se tornou muito mais bonita com aquela conversa jogada fora dentro de meu ser.

Ele teve problemas no Brasil. Meu amigo tinha moto. Bebeu algumas cervejas. A polícia o parou pela placa gringa bem no dia da gelada. Foi preso. Antes disso, nada mais nada menos do que uns palavrões ditos daquele brasileiro conservador que tem prazer em ferrar argentino. Tapas e empurrões também aconteceram. Foi tudo no meio da rodovia que beirava o mar.

Meu amigo me deixou chocada e triste por ele. Ele não sabia dessa tal Lei Seca, morava há alguns meses em Ubatuba. Foi parar em um presídio em São Paulo, mal fazia noção do que era. Dormiu alguns dias lá. Aprendei que não se pode dirigir bêbado no Brasil, e que também não podia ser argentino no Brasil. O preconceito comia solto.

Depois do mandato, o artesão voltou a Ubatuba sabe lá Deus como, mas voltou. E estava ali sorrindo pra mim. Encantado com o mar beirando a areia que acomodava nossa conversa. Ele escolheu viver para a natureza, e com a natureza. Deixou sua cidade, sua filha, seu emprego para encontrar o seu lugar.

Paguei o colar. Ele queria ir, eu acho. Se eu pudesse, compraria todos os colares. Ou quem sabe fizesse o dinheiro não existir mais e então achar um casinha para ele morar, ali mesmo perto da praia. Também conseguiria ir à Argentina ver sua menina. Assim, meu amigo ficaria mais feliz, talvez.

Mas afinal, o mais incrível de tudo era que ele não tinha nada disso. Dinheiro, uma boa casa, um emprego, uma filha perto e qualquer outra coisa que a gente chama de “ser alguém na vida”. Mas meu amigo era sim alguém na vida. Era alguém em seu lugar. Que era feliz e deixou outra pessoa feliz. Alguém que largou o convencional para ficar perto do que te fazia sentir amor. O mar. A natureza. A paz. Ele e seu lugar.

Guardei o colar comigo, poucos sabiam que aquela pedra transparente da Lua ou do Sol tinha uma linda história. Um dia perdi. Chorei. Queria carregar aquela sensação da viagem anterior comigo. Mas tinha se ido.

Um tempo depois, quase exatamente um ano após essa viagem, uma pessoa que tinha muito amor a oferecer a mim me presenteou com o mesmo colar, a mesma pedra. Um gesto de amor para eu sempre me lembrar de ficar feliz.

Obrigada, amigo.

– Letícia Passarinho

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