O privilégio de um cego

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Narrativa agonizante a quem possui olhos.

 

“O privilégio de um cego”

Passou o dedo indicador pelos lábios secos, mas não era o que queria. Rastejou-os até o nariz e enfiou um dedo em cada narina. Depois de dez segundos sem ar, desistiu. Não era o que queria. Afastou os indicadores um do outro e subiu como uma unha que caminha cansada de arranhar. Era o que queria.

Pálpebras esticadas, cílios desorganizados. A sensação de desvendar o que um olho consente espetou como agulha fina que supostamente entrava devagar no centro da pupila ao mesmo tempo em cada lado. E assim se deu.

Os olhos giravam de ponta cabeça, de lado contrário, de montanha russa, de elevador que despenca. Pressionados para dentro, as laterais transbordavam sangue de cólera, de vômito após um porre de uísque, de lágrima cretina que fingiu cair em uma despedida, de secreção de sabonete fajuto. As retinas gritavam com voz de olhar e ecoavam as perspectivas forçadas que todo bom senso deve ter, saia curta é puta, pretinho pixaim tem culpa, passou no beco, estupra. As cores piscavam, faíscas de luzes se misturavam em gosto de terra suja, sabor de chorume, tudo se engolia. O olhar me desesperava com o raio laser que via através das calcinhas fio dentais as pimentas tatuadas, os peitos dissecados se silicone que gostam de serem apertados, os dedos murchos dos pés encardidos de lepra e larva. Queimava. A dor efervescia incessantemente no corte do coração doído de criança, pediu Mc Donalds para o pai de família que entrou e ele negou, Breno queimou. Breno queimou mais uma pedra para esmagar a fome. O olho se esmagava em cortes dilacerados. Sorriu e se quebrou após a mordida da pálpebra carnívora cheia de sede. As extremidades ardiam e eram aprazeradas naquele masoquismo ambulante ocasionado no dia que não existiu, quando ele encontrou seu amor através do olhar, mas piscou e partiu. Papo furado. Dos furos espichavam jatos de alimentos vomitados que se estrebuchavam para passar nos minúsculos espaços, quanto maior a comida mais o buraco se forçava e a agonia fazia morada. Os contornos dos olhos se debatiam como uma lesma atônita retocada de sal, a convulsão ilimitada não queria partir. Pensou nos carros, nas cobras, no suspiro da morte e na risada do patrão. Apertou. Afundou. A cor de esfarelava, então eram agora não só objeto de sofrimento, mas objeto de apreciação. Molhado. Vencido. Mastigado. Morto. Lixados do labirinto de encontro com os dedos, os restos dos olhos derretiam nos secos indicadores cheios de calor.

Do pó se vem, do pó se termina. Do olhar se vê, do olhar se cega.

 

 

Letícia Passarinho

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