TRAIÇÃO

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O cheiro do whisky trazia um gosto de mágoas amargas a minha boca, a fumaça de seus cigarros de cravo dançavam na sala vazia, seus lábios tortos ensinavam a melodia. A barba grande, as olheiras fundas e os olhos distantes e penetrantes. Me lembro o quão difícil foi olhar praqueles olhos marejados e nebulosos. O peso daquele olhar castanho sobre mim era maior que tudo. Eles seriam capazes de me achar em qualquer lugar do mundo.

Precisei de um tempo para me reconhecer ali, naquela situação tensa, de onde até a gravidade parecia fugir, tudo me puxava pra baixo, tudo era tão “down” e foi tão intensa a decepção que senti, que até parecia que o culpado não era eu. Percebi que seus movimentos imitavam os meus, seus dedos frios tocavam os meus, suas rugas pareciam as minhas, era tudo tão meu, era tudo tão eu.
Era tudo tão real.
Foi como se eu tivesse dormido por anos e acordado ali, de pé, mudo e de frente pra ele, como uma réplica de mim.

Como admitir o acontecido? Como assumir? Como ressurgir?
Essas incertezas foram murmuradas entre um trago e outro do cigarro que ele me deu. Faltava coragem para assumir a culpa, sobravam velhas desculpas que sussurramos juntos, seus lábios imitando os meus.
Desviei o olhar, ele também. Respirei fundo, ele também. Passei as mãos no cabelo… ele também.

Tentei pensar em uma mentira que pudesse minimizar o impacto, mas não consegui. Me perdi em pensamentos que me levaram de volta aos olhos castanhos, agora cheios d’água. Como se tivesse percebido que eu estava procurando alguma desculpa qualquer para o enganar mais uma vez. Nada vinha, acho que a verdade era mais forte que o sol pesado de dezembro inundando a sala vazia, porém cheia de ressentimentos e fumaça.

Ambos sabíamos que eu havia me deixado levar, dizendo que era só aquela vez, engolindo diariamente minhas pequenas pílulas de ilusão, me embriagando em grandes goles de sedução barata e passageira, me prostitui por tão pouco, abracei a falsa sensação de poder, beijei os ofícios e seus benefícios, vendi a alma, carteira assinada, férias para brincar e fingir ser feliz, me embriagar mais e dormir esperando nunca acordar.

Amanheci ali, bêbado com lágrimas nos olhos e o copo na mão, de frente pra um espelho que não me reconhecia, que não aceitava ser o homem que eu era, me traí inúmeras vezes, sendo o que os outros queriam, fazendo  muito do que esperam de mim e pouco do que eu desejava. E no final do dia, sozinho comigo mesmo, já não me reconhecia. Não conseguia mais me encarar.

O espelho sabia que não éramos mais o mesmo. Eu era apenas o reflexo do que queria ser, o homem no espelho chorava porque sabia que tinha sido abandonado há muito tempo, junto com sonhos antigos e planos infantis, estavam esquecidos em alguma gaveta do escritório, entre relatórios e extratos bancários. Só quem sabia como encontra-los novamente, era a nossa alma, que parecia estar dentro do espelho naquela figura que eu fora um dia, seu último sopro de esperança afogado pelo gole mortal. Nós dois e o copo vazio.

O arremessei contra os olhos de vidro que explodiram no tempo, brilharam no sol e rasgaram a nuvem de fumaça.

Me senti despedaçado em pequenos cacos espalhados pelo chão da sala, me misturando ao pó, voltando a essência de tudo.

Renascendo.

Lucas Alberti Amaral

PS: Tema sugerido pelo meu querido amigo Diogo Rios.
Beijos Di.

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2 comentários sobre “TRAIÇÃO

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