CÉU AZUL

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Eu sei.
E você sabe também que nessas conversas demoradas consigo mesmo, onde ia se enchendo de promessas vazias, criando mundos bem lá nos fundos da alma. E por fim inventando um futuro do pretérito mais que perfeito.
Enquanto nós, eu e seus anjos e demônios sabíamos, não poderiam acontecer.

Entre tanto, carências não se curam com palavras, palavras só alimentam o pequeno ego cansado de tantas vezes não ser valorizado. É muito piegas se eu disser que deu para ouvir você dizer: “Eu só queria ser amado!”?
E eu vi você buscando amor por todos os lados. (E não pude fazer nada).
O silêncio da noite emudece suas lágrimas, recebe ainda mais calado teu choro e não agradece!
Choro esse contido, tantas e tantas vezes.

Se na escuridão as lágrimas são amparadas pelas próprias mãos magras de quem tem o coração machucado. Há culpa?
Se o mundo não se encaixa em seus passos amargurados, ao mesmo tempo em que os lábios tremem, entre suspiros, sussurros e gemidos, reconhecidos. As nuvens não dançam mais, a noite já se vai…

Já cantam os pássaros no céu azul, trazendo no compasso reprimido a anunciação de um novo dia, porém a louça continua na pia, será ou seria? Reflexo da solidão de seu dia a dia? Da sua sagrada vida vazia? Do seu gosto depressivo?

As cores mudariam se alguém numa terça melancólica trouxesse os remédios da alegria que sempre veem escancarados no sorriso de um velho amigo, mas hoje não tinha ou tem amigos? Valeria até um inimigo, alguém com quem se preocupar, ocupar a mente, encher de ódio o corpo frio, viver uma história lá fora, viver!
Num abraço apertado e quente, naquele tão sonhado beijo indecente.

Se a vida é curta por que você a desperdiçaria? Se não há ninguém para amar, não há motivos para rezar, pedir a Santa Luzia trazer luz ao seu dia e levar embora os pensamentos de um triste suicídio com a cabeça enfiada na pia!

E apenas a pia cheia de louças sujas presenciou ou presenciaria o fim daquela sagrada vida e suas teimosias.
Chorou novamente, solitário e inconsequente, morreria sozinho achando e se perguntando: “É pecado não ser amado?”
Suas angustias misturadas aos sonhos amaldiçoados e a alma despedaçada.

Se foi então mais um coração cansado, ego machucado banhado de lágrimas e confusão.

Abençoada seja a alma lavada pela água suicida da pia que pela última vez refletiu a solidão do dia a dia do pequeno mundo de quem não se encontrou e morreu achando que era seu pecado não ser amado.
Ali ficou de presente para nós, um corpo que jazia de frente para a pia e também se via a louça lavada e um bilhete molhado que dizia:
“A quem possa interessar:
Meus restos mortais, suplico encarecidamente; não o torturem com choros, rezas ou velas. É apenas a minha matéria e imploro que a deixem degradando-se em paz. A putrefação não é degradante. Se a humanidade permitisse que a natureza tomasse o seu curso, seria o renascimento da matéria.
Eu renasceria no vento que passa a murmurar, nas folhas que farfalham, no solo que abriga e alimenta milhares de seres vivos, na água que corre para o mar nas chuvas que regam os campos, no orvalho que cintila ao luar, nas grandes árvores que abrigam ninhos de passarinhos e que vergam a passagem dos ventos fortes, nos pequenos arbustos que escondem a caça do caçador…
Céus! Eu me vingaria se apenas uma de minhas partículas participasse do desabrochar de uma flor ou do canto de um pássaro.
Prefiro morrer do que viver com a morte dentro de mim.
Perdoem-me”

Lucas Alberti Amaral

Obs: O bilhete suicida é real e foi tirado desse site: http://www.avesso.net/suicid6.htm
Desejo que essas almas atormentadas descansem em paz.

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3 comentários sobre “CÉU AZUL

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